Brasil

02/08/2013 às 17:25 Paternidade

Homens assumem o papel de criar os filhos sozinhos após morte das mães

No Alto Tietê, homens recebem apoio da família para cuidar de bebês. Psicólogo aconselha criar rotina, assumir paternidade e não delegar papéis.

Imagem: ReproduçãoClique para ampliarO viúvo está recebendo ajuda da sogra, Maria José, para cuidar das pequenas Sabrina e Camila(Imagem:Reprodução)O viúvo está recebendo ajuda da sogra, Maria José, para cuidar das pequenas Sabrina e Camila
Aos 29 anos, o vendedor José Pereira Albano se vê na difícil tarefa de cuidar de duas gêmeas com menos de um mês de vida. O morador de Poá (SP) passa madrugadas acordado e suas filhas precisam mamar a cada três horas.

Só que, em vez do peito da mãe, Sabrina e Camila recebem mamadeiras feitas com leite em pó especial para bebês. A esposa de José morreu devido a complicações no parto. “Está difícil, mas a gente vai aprendendo com a vida”, diz.

Morador do bairro Jardim Manoel, Albano vive em uma casa de três cômodos junto a outra residência no mesmo terreno. No total, 11 pessoas dividem os imóveis. São todos parentes de Maguilene Marcelino, mãe das bebês, que tinha também 29 anos quando morreu. Os parentes ajudam nos cuidados com as crianças.

“A gente vai conseguir. À noite, minha mãe e minha sogra me ajudam a cuidar delas”, conta Albano. Juntas, as meninas consomem 70 mililitros do leite especial a cada mamada. “Conhecidos da vila estão doando leite e minha ex-patroa também vai ajudar”, conta Albano, que está afastado do trabalho para cuidar das meninas.

A mãe de Maguilene, Maria José Luís Marcelino, divide o trabalho de costureira com a atenção às duas netas. “Eu estou o tempo todo com elas, são quietinhas, muito boazinhas. Elas vão ter todo o amor”, diz.

O apoio da família - e de mulheres como dona Maria José - é muito importante para homens que passaram pela experiência traumática de perder sua companheira e se veem sozinhos na tarefa de criar os filhos.

Quem explica melhor a relação é o psicólogo Agostinho Caporali. "Nós nascemos para sermos criados por pai e mãe. Uma figura materna é importante, seja da mãe do pai viúvo ou a sogra. Fará um contraponto. A mulher tem uma sensibilidade diferente e isto faz muito bem para a criança", afirma.

Imagem: ReproduçãoClique para ampliarÂntonio Carlos e a filha, Manuela(Imagem:Reprodução)Ântonio Carlos e a filha, Manuela
Depressão paterna

Em Suzano, também na região do Alto Tietê, as mulheres da família do autônomo Antônio Carlos Santos da Silva, de 44 anos, que o ajudam a cuidar de sua filha, Manuela, uma bebê de seis meses.

A esposa de Antônio Carlos também morreu devido a complicações no parto. "Depois que minha esposa faleceu, eu não tive vontade de viver mais. Se não fosse minha família, minha mãe, eu não ia aguentar seguir adiante. Foi muito dificil", conta o viúvo, que também recebe ajuda de uma tia.

Antônio Carlos afirma que ainda não está livre da angústia. "Tem dia que eu não quero ver ninguém. Não posso ver na televisão casos como o que aconteceu com minha mulher", diz.

O psicólogo Caporali confirma que o caminho para o homem se reerguer após uma perda tão grande é duro e que buscar apoio psicológico com um profissional pode ser fundamental. "Há casos em que o pai rejeita a criança porque a vê como o motivo da perda da mulher amada. Por isso é importante uma terapia para ele poder colocar tudo para fora, chorar, passar por isso", explica.

O desafio de se tornar o principal responsável na criação do filho toma uma proporção maior quando é aliado à morte da companheira. "Existe ali uma perda muito grande em tudo. O pai se vê em um papel em que não estava 100% preparado. Não é natural ele cuidar da prole.

A mãe já nasce preparada para isso. O homem seria um coadjuvante e isso traz para ele uma insegurança muito grande. Se ele não tiver apoio da família da esposa, fica muito complicado para ele", continua o especialista.

"É importante que o pai assuma seu papel, sua paternidade, e ele não delegue para outras pessoas como avós da criança e outros parentes. Ele precisa criar uma rotina. Existem muitas famílias com a figura do "pai-mãe" e dá muito certo", conclui Caporali.

Antônio Carlos tem duas grandes aliadas que o ajudam a cuidar de Manuela. "A parte mais trabalhosa é à noite, a preocupação de dar mamar, da criança engasgar. O jeito certo eu aprendi com minha mãe e minha tia. Elas me ajudam, mas já sei fazer tudo", garante.
Imagem: ReproduçãoJosé Albano perdeu a esposa após complicações no parto das filhas gêmeas, que estão com 16 dias de vida(Imagem:Reprodução)José Albano perdeu a esposa após complicações no parto das filhas gêmeas, que estão com 16 dias de vida
Fonte: g1.globo

Comente esta notícia Seu comentário:
Comentários
  • Não há comentários nesta notícia
Enviar por e-mail Comentário: Os comentários serão incluídos na mensagem