Política

Lobista da JBS detalha esquema de compra dos partidos políticos

O relato do lobista é didático e sequencial.
RAYANE TRAJANO
21/05/2017 09h51

No início do seu primeiro depoimento aos procuradores, ocorrido em 5 de maio de 2017, Ricardo Saud, diretor da JBS, informou que estava ali para confessar os crimes cometidos por ele e a empresa, exercendo seu “dever cívico”. Nesse primeiro testemunho, o executivo fala apenas de como funcionou a distribuição de propina para partidos políticos, na campanha eleitoral de 2014. A “aula do lobista” foi publicada pela revista Exame, em seu site.

Ricardo Saud disse que iniciou na JBS em 2010, sendo diretor de “relações institucionais” –  nome fantasia para lobistas. Ele esclarece que o compromisso principal era com o Partido dos Trabalhadores ( PT), mas relata que distribuiu dinheiro a 28 partidos. No vídeo [ao final da matéria] o lobista explica cada passo do acordo e da execução.

Tendo conhecimento da quantidade espantosa de dinheiro que era distribuído ao PT a cada eleição, Ricardo disse que só entendeu o motivo durante uma conversa com o ex-ministro Paulo Bernardo, onde Bernardo questionou : “O dinheiro não é de vocês. Por que está querendo segurar um dinheiro que não é seu?”, foi aí que Ricardo percebeu que o dinheiro “doado” na campanha era dinheiro que a JSB tinha recebido do Estado.

O relato do lobista é didático e sequencial. Em 2014, havia R$ 40 milhões separados para a campanha presidencial do PT/PMDB. O interlocutor era o tesoureiro da campanha, Edinho Silva, mas o aval para o repasse dos valores vinha de Guido Mantega e Joesley Batista. Como os pedidos de propina aumentaram no decorrer da campanha, no total foram repassados cerca de R$ 350 milhões, comprando os partidos políticos para eleição da chapa Dilma-Temer.

De acordo com ele, os partidos que receberam dinheiro da JBS foram  PP (R$ 42 milhões) , PR (R$ 36 milhões), PRB ( R$ 3 milhões) e  PCdoB (R$ 13 milhões). O interlocutor no PR era o senador Antonio Carlos Rodrigues; no PP, era com o senador Ciro Nogueira. No PCdoB, R$ 3 milhões [dos R$ 13 milhões] foram repassados diretamente ao vereador Orlando Silva, a pedido de João Vaccari. O PRB recebeu pelo presidente do partido e hoje ministro do Desenvolvimento, Marcos Pereira, que repassou R$ 1 milhão para o PV.

Ricardo Saud deixa claro que toda a campanha foi unificada: era a eleição de Dilma e Temer.  “Quero deixar bem claro: nunca foi sozinha a campanha de Dilma. Sempre foi Dilma e Temer, Dilma e Temer. Até que minha proximidade era muito maior com o Temer. Então, quase tudo que eu fazia, não para trair o PT, eu levava ao conhecimento do presidente Temer. E quando foi o pagamento dele, que o PT não liberava dinheiro para ele, ele brigando por esse dinheiro, e ele conseguiu R$ 15 milhões com o PT.”

Esse relato do lobista pode acabar com o argumento da defesa do presidente Temer no processo no Tribunal Superior Eleitoral, onde os advogados pedem a separação do processo, alegando que Temer não sabia das irregularidades e que a responsabilidade era de Dilma.

Nos dois pronunciamentos feitos pelo presidente Michel Temer após o escândalo das delações, ele nega qualquer envolvimento ilícito com os empresários da JSB. Nesse sábado (20), o presidente disse que vai pedir a suspensão do inquérito no STF, pois o áudio entregue por Joesley Batista foi editado e manipulado [ouça aqui].

O ministro Gilberto Kassab, do PSD, informou à Exame que “com relação às menções a repasses durante o processo eleitoral em 2014, cabe apontar que não houve 'compra de partido' e as doações recebidas foram registradas junto à Justiça Eleitoral”. A assessoria de imprensa do PR também enviou nota que “o PR tem por norma não comentar conteúdos relacionados a investigações em curso ou procedimentos do Ministério Público e do Poder Judiciário”. O ministro Marcos Pereira, do PRB, disse que “as afirmações constantes da delação de Joesley Batista não são verdadeiras”. O PCdoB informou, por nota, que somente recebeu recursos na forma da lei vigente à época das eleições. O ex-ministro Guido Mantega não se manifestou. A reportagem da Exame não conseguiu contato com as assessorias de PDT, Pros e PP e com o ex-ministro Edinho Silva. 

Vídeo completo da explicação de Ricardo Saud: