Sarah descobre novos talentos e sonhos no judô
Campeã olímpica de Londres comemora feitos alcançados com causa social. 130 judocas participam de aulas em Teresina. Meta é atingir 600 crianças
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Os cuidados de Mauraline com Sávio, garoto está há quatro meses no projeto
São quatro horas da manhã e lá vai Sávio Araújo, de apenas nove anos de idade, atrás de seu quimono. A presteza com que procura o material revela: é mais um dia de treinos para o pequeno judoca no CT Sarah Menezes.
Os cuidados de Mauraline com Sávio, garoto está há quatro meses no projetoAcordar de madrugada pode até assustar (ou impressionar) você, mas virou rotina para Sávio. Ele é uma das 130 crianças atendidas pelo projeto social da campeã olímpica, que funciona há pouco mais de um ano em Teresina, capital do Piauí.
Devido à separação dos pais, Sávio passou por uma depressão, incluindo crises de medo e pânico. O garoto começou no judô para diminuir a ansiedade, que atrapalhava os estudos. Com o quimono em mãos, Sávio chega ao lado de sua mãe, a artesã Mauraline Cunha Araújo, ao Centro de Treinamento.
Dentro dos tatames, o judoca aprende os primeiros passos do esporte. Do lado de fora, Mauraline observa e relembra o dia em que o treinador Expedito Falcão esteve no colégio do filho para falar sobre o projeto.
O Sávio ficou empolgado após a apresentação do judô. Como ele tinha depressão, acabei aceitando a participação dele, pois os médicos recomendaram uma atividade física. Meu filho não dormia, não lia, não queria mais comer e estava agressivo. Hoje vejo melhoras e me sinto feliz ao vivenciar o crescimento dele relata Mauraline.
Sávio é apenas uma das centenas de histórias vivas no CT Sarah Menezes. Existem tantas outras, com o nome de Ciro, Luis Gustavo, João, Letícia, Jéssica... Reunidas, provam que a conquista de uma medalha olímpica vai muito além que uma simples ou complicada disputa, competição, golpes, regras.
Ouro também traz um legado, além de renovar esperanças e sonhos. Ah! E quando se trata de sonho, esses são imensuráveis.
Quero ser campeão – diz Sávio, ainda tímido.
A ideia do projeto social começou em junho do ano passado, quando o técnico da atleta, Expedito Falcão, recebeu tatames especiais do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para ajudar na preparação final de Sarah para os Jogos de Londres. Com o material, veio a idealização: era hora de retribuir, pelo menos de alguma forma. No começo, Sarah e Expedito bateram de porta em porta atrás de patrocinadores.
Lancei essa ideia para Sarah antes dela ser campeã olímpica. Com a chegada dos tatames doados pelo COB, conversei: era o momento de retribuirmos para a sociedade tudo aquilo que ela já tinha ganhado no judô.
Depois disso, encabeçamos a montagem do projeto. Acredito que é um dos legados deixados por Sarah. O objetivo do projeto é estruturar o judô no estado, trazer algo melhor na modalidade. Então, vai enriquecer não apenas a Sarah, mas o esporte como todo – explicou Expedito Falcão.
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Isadora Caroline, de 8 anos, faz esforço para se tornar grande atleta
O projeto funciona da seguinte forma: o Governo Estadual contribui com o aluguel do espaço e algumas empresas privadas financiam as aulas das crianças, como se fossem padrinhos.
Isadora Caroline, de 8 anos, faz esforço para se tornar grande atletaA contribuição mensal dada pelos parceiros faz com que o dinheiro arrecadado seja utilizado no pagamento dos professores e despesas de água, luz, internet, além de materiais esportivos.
A intenção é conseguir atingir entre 500 e 600 crianças. Para isso, é preciso ter mais parceiros e que os órgãos públicos percebam isso.
Primeiramente estamos pensando no lado social, depois no competitivo – completou o técnico.
Falando em sonhos, Isadora Caroline, de oito anos, aparece. Séria e concentrada, a menina que mora no bairro Mário Covas, zona Sul de Teresina, fala na ponta da língua sobre seu futuro: se transformar em Sarah Menezes. Pode parecer muito cedo para Isadora falar em Olimpíadas, porém quem sabe? Por que não?
Quem nunca sonhou quando era criança?
Alguns gestos mostram que a pequena pode se tornar uma aposta: Mesmo depois do fim das aulas da sua turma, Isadora faz questão de ficar observando os treinos do grupo seguinte. Não demora muito, e a judoca já está treinando novamente. É uma prova de garra e esforço, alicerce de campeões.
Gosto de ver os outros treinarem, pois quero ser que nem a Sarah. O que mais gosto é de lutar. Tenho duas medalhas e das 10 lutas que fiz, ganhei seis – revela Isadora, aluno do quarto ano do Ensino fundamental.
Futuro nas palavras da campeã
Sarah, 23 anos. Mirlene, 12. Uma é símbolo do esporte brasileiro. A outra pretende chegar lá. A agitada vida de Sarah impede a frequente ida da atleta ao CT. Para se ter uma ideia, durante a produção da reportagem, Sarah estava na Rússia, no Grand Slam Moscou, conquistando mais um ouro.
Antes, foi prata no Mundial Militar, no Cazaquistão.
Mas o destino já colocou frente a frente Sarah e Mirlene. O nervosismo quando esteve bem perto da campeã de Londres foi inevitável. Antes, o encontro foi apenas pela televisão, quando Sarah conquistou a medalha nos Jogos Olímpicos.
Penso em ter um rumo igual ao dela e, quem sabe, chegar ao nível. Estudo e faço exercícios para isso e já sinto com responsabilidades de ganhar competições – narra Mirlene, há um ano no projeto social.
As palavras enchem Sarah de orgulho:
É uma satisfação muito grande vivenciar tudo isso, pois é a concretização de um sonho. Apesar de ser difícil ter tempo para ir ao projeto, sempre que vou coloco o quimono e ajudo a professora na aula, corrigindo alguns erros deles. Eles gostam bastante, mas é difícil acontecer. Acredito que seja o mais importante depois da medalha. Conquistei o ouro sem ter vindo disso, sem ter essa oportunidade que eles estão tendo. Sei que de lá podem vir outros como eu revela Sarah Menezes, que completa:
Que eles aproveitem a oportunidade, que se inspirem e abracem o projeto com muito amor. Todos temos dificuldades, assim como eles, mas acredito que se cada um se destacar. Eles vão começar a melhorar a vida deles e da família – diz Sarah.
Gritos da professora: formando cidadãos
“Concentra! Prestem atenção! Olha o respeito! Tia, estou fazendo certo?”. As frases são da professora Jéssika Santos, responsável por comandar uma turma de cerca de 50 alunos. Palavras duras, mas cheias de significados: espírito competitivo, obedecer regras e caminhar sozinhos. Enfim, observar uma manhã de aulas no CT Sarah Menezes é uma atividade recompensadora, premiada pela energia e força de vontade das crianças.
Nossa pretensão é ajudar no comportamento, na escola, na disciplina e tirar as crianças das ruas para um futuro cidadão. Após esse desenvolvimento, podemos encontrar um futuro competidor. A Sarah Menezes é o espelho, exemplo onde eles podem chegar. Por isso, esses alunos se abraçam nesta oportunidade – explica Jéssika Santos.
E vale a pena todo o esforço. Cristiane Oliveira quem o diga. Aos 34 anos, a dona de casa leva os filhos, André Luís e Letícia, além dos vizinhos Sarah e Ítalo, ao projeto. Não importa a espera pelo ônibus. O que vale é ficar acreditando.
Sempre os acompanhei de perto. Acredito que possam ser futuros campeões. Todo meu esforço está sendo pago, vendo eles felizes todos os dias – conta Cristiane Oliveira.
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